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sexta-feira, 23 de junho de 2017

Série de vídeos mostra mulheres lendo e atingindo orgasmos.


Série de vídeos mostra mulheres lendo e atingindo orgasmos.
por Jaque_Barbosa


A ideia é do fotógrafo Clayton Cubitt mas rapidamente se espalhou, dando origem a algumas réplicas. 
Hysterical Literature é uma série de vídeos de mulheres lendo textos, com passagens eróticas ou não, ao mesmo tempo que são estimuladas por um vibrador. 
Atingindo o clímax, elas mostram “o dualismo entre o corpo e a mente”.
O fotógrafo responsável pela ideia diz que a série também pretendeu mostrar o contraste entre cultura e sexualidade, já que o orgasmo feminino ainda é criminalizado em algumas sociedades e religiões.
Assista os vídeos e tire suas próprias conclusões.



















post: Marcelo Ferla

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Concurso fotográfico elege as melhores imagens aéreas.


Concurso fotográfico elege as melhores imagens aéreas.
Por Fabiano Alcântara

My Modern Met/Reprodução
Concurso fotográfico elege as melhores imagens aéreas.
Competição dedicada à fotografia aérea, a Skypixel 2016 Photo Contest recebeu 27 mil inscrições de fotógrafos baseados em 131 cidades.  
Ge Zheng foi o grande vencedor, com uma imagem de um pescador cercado por redes.
“A imagem impressionante traz redes de pesca alongadas pelo reflexo da água”, escreveu o My Modern Met. 
“As fotos da categoria Beauty and Drones, profissional e amador, mostram a variedade estilística dos fotógrafos. 
Cada uma infunde seu olhar artístico próprio provando que a fotografia aérea exige o mesmo talento e habilidade técnica que qualquer outro tipo de fotografia”, completa.













post: Marcelo Ferla

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Warren Keelan.


Fotógrafo australiano é especialista em imagens de ondas.
Por Fabiano Alcântara

Reprodução/Colossal
Warren Keelan é especialista em fotografar ondas.
O fotógrafo australiano Warren Keelan é especialista em capturar ondas sob perspectiva lateral e, às vezes, até dentro delas. 
Ele, que já havia tido seu trabalho destacado pelo Colossal voltou ao site graças a novas fotos.
“Warren fotografa a curvatura das ondas quebrando de maneira deslumbrante”, afirmou o site. 
As imagens foram capturadas no litoral sul de New South Wales. 
Deu onda, Warren.
Warren Keelan é especialista em fotografar ondas:









post: Marcelo Ferla

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Os dois homens que se apaixonaram em plena guerra do Iraque.


Os dois homens que se apaixonaram em plena guerra do Iraque e lutaram por 12 anos para ficar juntos.
Claire Bates
BBC World Service

Allami e Hrebid lutaram mais de uma década pelo direito de viver seu amor em liberdade.
O ano era 2003. 
Formado em artes plásticas, mas incapaz de achar trabalho no Iraque em guerra, Nayyef Hrebid se candidatou ao posto de intérprete do Exército americano.
"Fui enviado a Ramadi, naquela época o pior lugar (para se trabalhar). 
Saíamos em patrulhas e as pessoas eram mortas por bombas e franco-atiradores. 
Eu perguntava a mim mesmo: 'por que estou aqui? 
Por que estou fazendo isso?'."
Mas um encontro, ao acaso, com um soldado do Exército iraquiano mudaria tudo.
"Um dia, estava sentado do lado de fora e vi um rapaz sair do bloco dos chuveiros. 
O cabelo dele era muito negro e brilhante, e ele estava sorrindo. 
Pensei: 'meu Deus, esse cara é muito lindo'."
"Senti que algo bonito tinha acontecido em um lugar tão ruim."

Sono velado
Hrebid era homossexual, mas mantia isso em segredo - como relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo são tabu no país, gays correm risco de sofrer ataques violentos.
"No Iraque, ser gay é considerado algo muito errado e traz vergonha para a sua família. 
Você pode até ser morto, então tem de ser muito cuidadoso", explicou.

Hrebid trabalhava como tradutor para o Exército americano.
O que Hrebid não sabia é que o soldado que ele avistara naquela tarde, Btoo Allami, também se sentia atraído por ele. 
Algum tempo antes, os dois tinham viajado no mesmo veículo.
À distância, Allami tinha admirado Hrebid, que adormecera em seu assento.
"Ele parecia muito cansado", relembra.
"Eu tinha a estranha sensação de que procurara por ele há muito tempo. 
O meu sentimento crescia com o tempo e eu sabia que queria falar com ele", contou Allami.

Declaração de amor
Um dia, os dois foram enviados em uma missão para retirar insurgentes do hospital da cidade. 
E aos poucos finalmente começaram a se conhecer.
"Depois das patrulhas, nós voltávamos para o alojamento e, um dia, Btoo me convidou para comer e conversar com ele e os outros soldados", contou Hrebid. 
"Nós conversávamos toda noite e o meu sentimento por ele ia crescendo."
Três dias após aquele jantar, os dois inventaram uma desculpa para sair do alojamento e conversar a sós. 
Eles se sentaram em um estacionamento escuro, cheio de Humvees (veículos utilitários militares) do Exército americano.

Btoo, fotografado ao lado de um veículo Humvee do Exército americano, era sargento no Exército iraquiano.
"Me sentia muito próximo dele e achei que era hora de dizer algo", contou Allami.
"Então falei do que eu sentia, disse que estava apaixonado por ele. 
Ele me beijou e saiu. Foi uma noite maravilhosa. 
Fiquei dois dias sem comer depois daquilo."
O relacionamento foi evoluindo e eles passavam cada vez mais tempo juntos no acampamento.
"Nas missões, eu tentava ficar perto dele, embora devesse estar com os americanos. 
Caminhávamos juntos e tiramos algumas fotografias", disse Hrebid.

Perseguições
Os colegas iraquianos e americanos logo começaram a perceber que havia algo entre eles.
"Falei sobre Btoo ao meu capitão americano e ele nos ajudou, trazendo Btoo para ficar algumas noites comigo no acampamento americano", disse Hrebid.
"Mas alguns dos outros soldados pararam de falar comigo quando descobriram que eu era gay. 
Um dos meus amigos tradutores, um rapaz da minha cidade, me bateu com um pedaço de pau e quebrou meu braço."
Em 2007, Hrebid e Allami foram enviados a Diwaniyah, no sul do Iraque. 
Eles tinham a sorte de estar na mesma cidade, mas ainda tinham de manter o relacionamento em segredo.

Allami (esq) e Hrebid sabiam que jamais poderiam viver como um casal no Iraque.
Separação
Em 2009, Hrebid pediu asilo nos Estados Unidos. 
Após o longo período de serviços prestados ao Exército americano, era muito perigoso para ele ficar no Iraque.
"Pensei que, se eu fosse, seria fácil convidar Btoo para vir depois."
"Sabia que se ficássemos no Iraque não haveria um futuro para nós. 
Íamos acabar casados com mulheres e vivendo escondidos para o resto da vida. 
Mas eu tinha assistido (ao seriado de TV) Queer As Folk e sabia que existia uma comunidade gay no outro lado do mundo."
O pedido de asilo de Hrebid foi aceito e ele foi viver em Seattle, no Estado americano de Washington. 
Mas suas tentativas de conseguir um visto para Allami fracassaram.
Nesse meio tempo, a família de Allami havia descoberto sua homossexualidade e ele sofria pressão para se casar com uma mulher. 
Com a ajuda de um amigo de Hrebid - o ativista pelos direitos de refugiados Michael Failla -, o jovem fugiu para Beirute, no Líbano.
"Não foi uma decisão fácil, eu tinha um contrato de 25 anos com o Exército e era o único suporte financeiro da minha família. 
Mas eu sabia que tinha de ficar com Nayyef", contou Allami.
Ele apelou ao Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur), mas seu visto para entrada nos Estados Unidos como turista venceu antes que seu caso fosse resolvido.

'Agora sou livre', diz Allami.
Para dificultar a situação, como imigrante ilegal no Líbano, tinha de se manter longe de soldados e postos de checagem, sob o risco de ser enviado de volta para o Iraque.
"A espera foi difícil", disse Allami. 
"Mas quando falava com Nayyef, sempre me sentia mais forte."
Eles conversavam pelo Skype todos os dias.
"Ele me via fazendo café da manhã, eu o assistia enquanto ele fazia o jantar, nós conversávamos como se vivêssemos juntos", disse Hrebid.
Allami foi entrevistado várias vezes pelo Acnur, mas seu pedido sofreu vários reveses e atrasos.

'Padrinho'
Michael Failla interveio novamente, voando duas vezes para Beirute para advogar em nome de Allami.
"Eu digo que ele é meu padrinho", contou o iraquiano.
No entanto, enquanto aguardava a decisão do Acnur, Allami foi chamado para uma entrevista na embaixada do Canadá no Líbano.
Em setembro de 2013, com a ajuda de Failla, ele voou para Vancouver, no Canadá. Com isso, agora apenas 225 km separavam os dois.
"Eu viajava todo fim de semana e nos meus dias de folga para ver Btoo", disse Hrebid.
Eles se casaram no Canadá, em 2014. 
Hrebid pediu, então, um visto para que seu marido pudesse ir viver com ele nos Estados Unidos.
Em fevereiro de 2015, os dois foram chamados para uma entrevista no departamento americano de imigração em Montreal.
"Foi um voo longo, seis ou sete horas. 
A temperatura (em Montreal) era 27 graus abaixo de zero, eu estava congelado", recordou Hrebid.
"A oficial nos fez três ou quarto perguntas e, depois de uns dez minutos, disse a Btoo: 
'Você foi aprovado para viver como imigrante nos Estados Unidos'."
"Tive de pedir a ela para repetir. 
Cobri minha boca com a mão para não gritar. 
Saímos da sala e eu chorava e tremia. 
Não podia acreditar que aquilo estava finalmente acontecendo. 
Íamos morar juntos no lugar onde queríamos viver."
Em março de 2015, doze anos depois de se conhecerem, Hrebid e Allami viajaram de ônibus de Vancouver para Seattle. 
Eles decidiram fazer uma nova cerimônia de casamento em Seattle.
"Não tínhamos celebrado o primeiro casamento e queríamos o casamento dos nossos sonhos", disse Hrebid.
"Foi o dia mais feliz da minha vida."

Documentário
Hoje, o casal mora em um apartamento em Seattle. 
Hrebid, que trabalha como gerente em uma loja de decoração, é cidadão americano. 
Allami tem um green card e deve se tornar cidadão do país no ano que vem. 
Ele trabalha como supervisor em canteiros de obra.
A história dos dois foi contada no documentário Out of Iraq, exibido no LA Film Festival (festival de cinema de Los Angeles) no ano passado.
"Não temos de nos esconder. 
Posso segurar a mão dele quando caminhamos pela rua", disse Hrebid.
Allami concorda. 
"Tudo ficou tão diferente para nós agora."
"Antes não havia esperança, mas agora somos uma família. 
(Seattle) é uma cidade que acolhe homossexuais. 
Meu sonho se realizou. Sou livre."

Homossexualidade no Iraque
Não é ilegal ser gay no Iraque, mas, militantes dizem que homens e mulheres homossexuais são vítimas de assassinatos no país.
Em 2012, uma investigação do Serviço Mundial da BBC revelou que órgãos ligados à polícia estavam envolvidos em perseguições sistemáticas de homossexuais.
O grupo autodenominado Estado Islâmico, que controla áreas do país, matou dezenas de homens homossexuais em 2015 e 2016 - muitos deles jogados do topo de altos edifícios.

post: Marcelo Ferla

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'As famílias deveriam aceitar as pessoas como elas são'.


'As famílias deveriam aceitar as pessoas como elas são': a casa que abriga LGBTs que não têm onde morar.
Gabriela Di Bella
De São Paulo para a BBC Brasil

Projeta visa acolher gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transsexuais (LGBTs) que, por algum tipo de conflito com a família, não têm onde morar.
"Eu apanhei muito durante a infância por conta do meu jeito de ser. 
Quando fiz 18 anos, assumi para os meus pais que era gay e eles me mandaram embora. 
Ainda insisti em ficar, mas em 2013 decidi vir embora para São Paulo", conta a travesti Maria Leticia Ohana Costa, de 24 anos, a Manauara.
Exemplo do tipo de violência e intimidação que lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e transgêneros muitas vezes sofrem por parte das suas próprias famílias, Manauara foi uma das cinco pessoas que conseguiram encontrar abrigo e acolhimento em uma iniciativa pioneira no bairro Bela Vista em São Paulo: a Casa 1, uma mistura de centro cultural com república LGBT.
Inaugurado no dia 25 de janeiro, aniversário da cidade de São Paulo, e localizada na rua Condessa de São Joaquim, na zona central da capital, o espaço tem como objetivo acolher pessoas que, por algum tipo de conflito com a família, não têm onde morar.
Idealizada pelo jornalista e relações públicas Iran Giusti, de 27 anos, a Casa 1 pode ser considerada um refúgio num país onde, segundo o Grupo Gay da Bahia - ONG que coleta e divulga dados sobre o tema -, a cada 25 horas um LGBT é assassinado, o que dá ao Brasil o título de campeão mundial em números absolutos de violência contra minorias de gênero.
Segundo dados de ONGs internacionais, mais da metade dos homicídios de trans do mundo ocorrem no Brasil.
Em um relatório divulgado semana passada, a ONG destaca que aqui mata-se mais homossexuais do que nos 13 países do Oriente e África onde há pena de morte para gays e lésbicas. 
Luiz Mott, de 70 anos, antropólogo e fundador da ONG, destaca que São Paulo é o Estado campeão em assassinatos nos últimos dez anos.

Iran Giusti, criador do projeto, diz que casa é refúgio em meio à violência motivada pela intolerância.
"Infelizmente, apesar das algumas politicas públicas, isso não tem sido suficiente para reverter o quadro de tantas mortes", afirma.
A ONG diz que os casos são subnotificados porque não há números oficiais de crime de ódio. 
"Eu coleto dados há 37 anos por meio da mídia e de relatos pessoais que me passam, mas isso é prova da incompetência dos órgãos de segurança pública e direitos humanos", diz o antropólogo.
Os números têm crescido de forma preocupante. 
Foram 130 homicídios em 2000, com um salto para 260 em 2010 e para 343 em 2016.
A experiência do antropólogo se alinha com a de Giusti, que também considera que a falta de dados dificulta um retrato mais exato da situação das intimidações ou agressões sofridas pela comunidade. 
"É muito difícil saber o que está acontecendo exatamente - não temos classe social, nem idade, não há como traçar um perfil do LGBT expulso de casa", conta Giusti.
A Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania de São Paulo afirmou estar implementando um sistema de informações para a coleta de dados sobre violações de direitos reportadas por usuários em dos Centros de Cidadania LGBT. 
"Hoje, nossos quatro centros contemplam cerca de 1.400 pessoas, com atendimento nas áreas jurídica, psicológica e de assistência social", afirmou a pasta por meio de nota.
Entre os dados empíricos que Giusti coleta, ele diz ter notado um forte aumento nos casos de "exorcismo" organizados por familiares e de automutilação - quando a pessoa agride o próprio corpo.
Também há casos de isolamento social, como, por exemplo, quando a família impede acesso a internet e telefone. 
"(Isso) Acontece muito mais com as lésbicas", conta ele. 
"A família as isola, ficam de casa para a escola da escola para casa", conta.
Ele destaca a história de uma menina cuja família, após descobrir que ela era lésbica, a obrigava a comer somente o que sobrava após a refeição, e com talheres e pratos descartáveis. 
"Não vou dizer que isso me assustou, mas é inacreditável que ainda passamos por isso."

Os primeiros moradores

Cindy saiu e voltou para casa diversas vezes.
Companheira de quarto de Manauara, a travesti Cindy Tobias da Silva, de 19 anos, chegou à casa com a roupa do corpo.
Cindy assumiu a transexualidade aos 14 anos e começou a se vestir de mulher. 
"Quando minha mãe descobriu que eu estava usando hormônios femininos, me disse que, se era para fazer isso, era melhor eu ir embora", conta.
Ela saiu e voltou para casa diversas vezes, morou com uma tia e depois em uma casa na zona norte de São Paulo, onde fazia programas. 
A dificuldade de conseguir um emprego é um segundo obstáculo crucial. 
"Só por eu ser trans eu já sou 'deletada'", diz.
A falta de aceitação pela família também levou Marcel Borges, de 26 anos, a ocupar uma das camas da Casa 1. 
O estudante nasceu mulher, mas nunca se identificou como uma. 
Os pais não souberam como lidar com a transformação física do filho.
"É como se fosse um luto, a pessoa que eu era está deixando de existir para dar voz ao Marcel", conta.

'Quando raspei o cabelo, vi que não tinha mais jeito e assumi o Marcel'.
Borges buscou ajuda do Sistema Único de Saúde (SUS) e vai começar a tomar hormônios. 
"Quando raspei o cabelo, vi que não tinha mais jeito. 
Assumi o Marcel, também quero fazer a mastectomia (cirurgia de retirada dos seios)."
Ele relata os problemas que teve com a identidade social. 
"Já tive colegas de trabalho que se recusam a me chamar de 'ele'", conta.
Hoje, o jovem também é ativista da causa LGBT: 
"Nunca imaginei que fosse precisar desse tipo de ajuda, na real isso não deveria nem existir. 
As famílias deveriam aceitar as pessoas como elas são", fala.

Vaquinha online

Autores do projeto conseguiram arrecadar R$ 112 mil em vaquinha na internet.
Foi com apoio de amigos e do namorado que Iran Giusti tornou a Casa 1 realidade, após uma campanha na internet que, em 42 dias, conseguiu arrecadar R$ 112 mil.
Toda a verba tem sido utilizada para pagar o aluguel e custos de alimentação dos moradores. 
"Eles vão cuidar da limpeza e da comida, mas vamos fornecer tudo e dar acesso total às atividades culturais", fala.
A Casa 1 costumava ser um ponto de venda de drogas, mas agora chama atenção no bairro pelas cores na fachada e na calçada. 
O espaço tem dois andares com oito camas, cozinha e dois banheiros no segundo piso - e espaço para exposições e cursos no primeiro.
A ideia do projeto é unir os moradores à comunidade do bairro.
A iniciativa surgiu depois que Giusti ofereceu o sofá de seu apartamento para viajantes. 
"Um dos hóspedes que apareceu era um menino gay super-retraído. 
Para ele foi importante ver a gente confortável com a nossa sexualidade, conversamos muito com ele."
O papo rendeu uma carta de agradecimento meses depois. 
"Com a história dele percebemos que a gente pressiona muito os órgãos públicos, mas esquecemos das pessoas, o importante é a convivência mesmo", afirma.

Casa tem oito camas e espaço para convivência.
Quando o orçamento melhorou, Giusti decidiu abrir a casa exclusivamente para LGBTs que necessitavam de um teto. 
"Eu coloquei uma foto bem tosca e ainda expliquei que não podia dar muita privacidade, mas eu garantia um teto, e a demanda foi enorme", conta.
A ideia avançou sem qualquer apoio oficial - ele diz ter ouvido de grandes organizações que a iniciativa deveria estar ligada a políticas públicas.
"Se eles esperam há 30 anos por coisas como essa, eu não vou esperar. 
Estamos colocando a mão na massa e se tá com medo vai com medo mesmo, porque as pessoas enquanto isso estão sofrendo, estão apanhando, estão morrendo", diz ele.

Projeto para dar teto a jovens LGBT não teve apoio de organizações.
post: Marcelo Ferla

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quinta-feira, 22 de junho de 2017

Como foi criada a heterossexualidade como a conhecemos hoje.


Como foi criada a heterossexualidade como a conhecemos hoje.
Brandon Ambrosino
Da BBC Future

A heterossexualidade não "estava simplesmente lá" desde sempre - e não há por que imaginar que sempre estará.
O dicionário médico Dorland, de 1901, definiu a heterossexualidade como "um apetitite anormal ou pervertido em relação ao sexo oposto".
Mais de duas décadas depois, em 1923, o dicionário Merriam Webster definia a orientação sexual como "paixão sexual mórbida por alguém do sexo oposto"
Apenas em 1934 a heterossexualidade teve o significado atualizado: "manifestação de paixão sexual por alguém do sexo oposto".
Pessoas costumam reagir com incredulidade ao conhecer essas definições: 
"Isso não pode ser verdade", dizem. 
A sensação é de que a heterossexualidade sempre "esteve presente".
Há alguns anos, circulava na internet um vídeo de um homem que perguntava às pessoas na rua se achavam que homossexuais nascem com essa orientação sexual. 
As respostas variavam, mas a maioria dizia que era uma "combinação de natureza e criação".
O entrevistador então fazia outra pergunta na sequência, fundamental ao experimento: "Quando você decidiu ser hétero?" 
A maioria confessou nunca ter pensado nisso.
Ao sentir que seus preconceitos ficaram à mostra, as pessoas acabavam concordando com o ponto do entrevistador: as pessoas nascem gays, assim como nascem heterossexuais.
O vídeo parecia sugerir que todas as sexualidades "simplesmente estão aí", ou seja, não precisamos de uma explicação para a homossexualidade assim como não precisamos de uma para a heterossexualidade.
Parece não ter passado pela cabeça dos produtores do vídeo, ou das milhões de pessoas que o compartilharam, que precisemos de uma explicação para ambas.

Enquanto sexo heterossexual é tão antigo quanto a humanidade, o conceito de heterossexualidade como uma identidade é algo muito recente.
Há trabalhos muitos bons, tanto acadêmicos quanto populares, sobre a construção social do desejo e da identidade homossexuais. 
Na verdade, a maioria de nós aprendeu que a identidade homossexual passou a existir em um momento específico da história humana. 
O que não aprendemos porém, é que um fenômeno parecido aconteceu com o surgimento da heterossexualidade.
Há várias razões para essa omissão educacional, incluindo viés religioso e outros tipos de homofobia. 
Mas a principal razão pela qual não fazemos perguntas sobre a origem da heterossexualidade é provavelmente porque ela parece natural. 
Normal.
Mas a heterossexualidade não "estava simplesmente presente" desde sempre. 
E não há por que imaginar que sempre estará.

Quando a heterossexualidade era anormal
A primeira contestação de que a heterossexualidade foi inventada geralmente envolve um apelo à reprodução: parece óbvio que o sexo entre genitais diferentes existiu desde o início da humanidade - e não teríamos sobrevivido até aqui sem isso. 
Mas essa contestação presume que heterossexualidade é a mesma coisa que sexo reprodutivo. 
Não é.
"O sexo não tem história", escreve o teórico queer David Halperin, professor da Universidade de Michigan, "porque é baseado no funcionamento do corpo"
A sexualidade, por outro lado, tem uma história, precisamente porque é uma "construção cultural".
Em outras palavras, enquanto o sexo parece ser algo programado na maioria das espécies, a nomeação e classificação desses atos e de quem os pratica é um fenômeno histórico que pode e deve ser estudado como tal.
Em outras palavras: sempre houve instintos sexuais no mundo animal (sexo). 
Mas em um momento específico na história, os humanos criaram significados para esses instintos (sexualidade). 
Quando humanos falam sobre heterossexualidade, estamos tratando da segunda definição.
Hanne Blank trouxe uma maneira útil de discutir isso em seu livro Hétero: A Surpreendentemente Curta História da Heterossexualidade, com uma analogia da história natural.
Em 2007, o Instituto Internacional para Exploração das Espécies listou o peixe Electrolux addisoni na lista das "top 10 novas espécies" do ano. 
Mas é claro que essas espécies não passaram simplesmente a existir havia dez anos - foi apenas quando elas foram descobertas e cientificamente nomeadas.
"Documentos escritos de um certo tipo, por um certo tipo de autoridade, transformaram o Electrolux de uma coisa que já existia para uma coisa que ficou conhecida", conclui Blank.

O julgamento de Oscar Wilde por "indecência" frequentemente é considerado um momento chave para a formação da identidade gay.
Algo parecido aconteceu com os heterossexuais, que, ao final do século 19, passaram da mera existência para o conhecimento público. 
"Antes de 1868, não havia nenhum heterossexual", escreve Blank. Nem homossexuais.
Os humanos não haviam pensado ainda que eles poderiam ser diferenciados entre si de acordo com o tipo de amor ou desejo sexual que sentiam. 
Comportamentos sexuais, é claro, haviam sido identificados e catalogados, e até proibidos em certos momentos. 
Mas a ênfase estava no ato, não em quem o praticava.

Então o que mudou?
A linguagem. No final dos anos 1860, o jornalista húngaro Karl Maria Kertbeny criou quatro termos para descrever experiências sexuais: heterossexual, homossexual e dois termos que hoje não são usados mas que na época descreviam masturbação e bestialidade, monossexual e heterogenit.
Kertneby usou o termo heterossexual uma década depois quando foi convidado a escrever um capítulo de um livro a favor da descriminalização da homossexualidade. 
O editor do livro, Gustav Jager, decidiu não publicá-lo, mas acabou usando os termos de Kertneby em um livro que ele publicou em 1880.
A vez seguinte em que a palavra foi publicada foi em 1889, quando o psiquiatra austríaco-alemão Richard von Krafft-Ebing a incluiu em um catálogo de "doenças sexuais" chamado Psicopatia Sexualis. 
Mas, em quase 500 páginas, a palavra "heterossexual" é usada apenas 24 vezes, e nem sequer consta no índice.
Isso se deu porque Krafft-Ebing estava mais interessado em "instinto sexual contrário" ("perversões") do que em "instinto sexual", sendo que o último é o que ele considerava "normal" em termos de desejo sexual de humanos.
"Normal" é uma palavra cheia de significado, e foi usada de maneira errônea na história. 
A ordenação hierárquica de raças que levou à escravidão já foi aceita como normal, assim como a cosmologia geocêntrica. 
Os fundamentos desses consensos vistos como fenômenos normais perderam suas posições de privilégio apenas após serem alvo de questionamentos.
Para Krafft-Ebing, desejo sexual normal estava situado em um contexto maior de utilidade de procriação, uma ideia que combinava com as teorias dominantes sobre sexo no Ocidente. 
No mundo ocidental, muito antes dos atos sexuais serem divididos em hétero e homo, já havia uma ordem binária: sexo procriativo e não-procriativo.
A Bíblia, por exemplo, condena o sexo homossexual pela mesma razão que condena a masturbação: porque a "semente" é desperdiçada no ato.
Enquanto essa visão foi amplamente ensinada, mantida e reforçada pela Igreja Católica e depois por outras religiões cristãs, é importante sublinhar que ela não vem originalmente das escrituras judaicas ou cristãs, mas do estoicismo - doutrina fundada por Zenão de Cício (335-264 a.C.) que se caracteriza por uma ética em que a eliminação das paixões e a aceitação do destino são características do homem sábio.

Karl Maria Kertbeny criou o rótulo 'heterosexual".
Como a teórica católica Margaret Farley explica, os estoicos "tinham fortes pontos de vista sobre o poder dos humanos de regular emoções e sobre o desejo dessa regulamentação para encontrar a paz interior"
O filósofo estoico Musonius Rufus, por exemplo, argumentava que as pessoas deveriam se proteger contra autoindulgências, incluindo excesso sexual.
Para evitar sua indulgência sexual, diz o teólogo Todd Salzman, Rufus e outros estoicos tentaram classificá-la em "um contexto mais amplo de significado humano" - argumentando que o sexo só poderia ser moral se buscasse a procriação. 
Antigos teólogos cristãos adotaram essa ética conjugal-reprodutiva e o sexo reprodutivo virou a única forma normal de sexo já época de Agostinho (354-430).
Apesar de Krafft-Ebing tomar essa lógica procriativa como natural, ele a expandiu bastante. 
"No amor sexual, o verdadeiro propósito do instinto, a reprodução da espécie, não é consciente", escreveu.
Em outras palavras, o instinto sexual contém algo como um objetivo reprodutivo programado - um objetivo que está presente até mesmo nos que fazem "sexo normal" e não o percebem.
Em seu livro A Invenção da Heterossexualidade, Jonathan Ned Katz vê um grande impacto na abordagem de Krafft-Ebing. 
"Ao colocar o reprodutivo separado do inconsciente, Krafft-Ebing criou um espaço pequeno e obscuro onde uma nova forma de prazer começou a se desenvolver."
A importância desse movimento - de instinto reprodutivo para desejo erótico - não pode ser diminuída, já que é crucial para as noções modernas de sexualidade.
Em geral, quando as pessoas hoje pensam em heterossexualidade, imaginam algo como: João sabe desde muito pequeno que é eroticamente atraído por garotas. 
Certo dia ele canaliza essa energia erótica em Suzana e ele a conquista. 
O casal se apaixona, dá expressões sexuais e físicas aos seus desejos eróticos e os dois vivem felizes para sempre.

Foi apenas na virada do século 20 que os pensadores começaram a separar desejo sexual da reprodução.
Sem o trabalho de Krafft-Ebing, essa narrativa talvez nem fosse considerada "normal". 
Não havia qualquer menção, mesmo que implícita, à procriação. 
Definir instinto sexual como normal de acordo com desejo erótico foi uma revolução fundamental para pensar sobre sexo.
O trabalho de Krafft-Ebing deu base para uma mudança cultural que aconteceu entre a definição de 1923 de heterossexualidade como "mórbida" para a de 1934 como "normal".

O sexo e a cidade
Ideias e palavras frequentemente são produtos de sua época. 
Esse certamente é o caso da heterossexualidade, que nasceu em um momento em que a vida americana estava ficando mais regulamentada. 
Segundo afirma Blank, a invenção da heterossexualidade corresponde com o surgimento da classe média.
No final do século 19, as populações nas cidades na Europa e na América do Norte começaram a explodir. 
Em 1900, por exemplo, a cidade de Nova York tinha 3,4 milhões de moradores - 56 vezes sua população apenas um século antes.
Conforme as pessoas se mudavam para os centros urbanos, traziam consigo suas "perversões sexuais"
Ao menos era o que parecia. 
"Em comparação com os vilarejos rurais, as cidades pareciam antros de excessos sexuais", escreve Blank.
Quando as populações nas cidades eram menores, diz Blank, era mais fácil controlar esse tipo de comportamento, assim como era mais fácil controlá-lo quando acontecia em áreas rurais onde a familiaridade entre vizinhos era uma norma. 
A fofoca das cidades pequenas podia ser um grande motivador.
Devido ao conhecimento maior dessas práticas sexuais em paralelo com o fluxo de classes mais baixas às cidades, "a culpa pelo comportamento sexual urbano impróprio geralmente era jogada sobre as classes mais baixas", diz Blank.
Era importante para uma classe média emergente se diferenciar desses excessos. 
A família burguesa precisava de uma forma de proteger seus membros da "decadência aristocrática por um lado e dos horrores da cidade lotada do outro"
Isso demandava "sistemas reproduzíveis e universalmente aplicáveis para uma administração social que pudesse ser implementada em larga escala".
No passado, esses sistemas podiam ser baseados na religião, mas o "novo Estado secular exigia uma justificativa secular para suas leis", diz Blank. 
Aí entram especialistas como Krafft-Ebing, que deixou claro que a classe média ascendente não podia considerar o desvio da sexualidade normal (hétero) como simplesmente um pecado, mas como uma degeneração moral - um dos piores rótulos que alguém poderia ter então.

O anonimato da vida urbana no século 19 frequentemente era culpada por um comportamento sexual mais "imoral e livre".
"Chame um homem de 'canalha' e você define seu status social", escreveu William James em 1895. 
"Chame ele de 'degenerado' e você o colocou no grupo mais repugnante da raça humana"
Como diz Blank, degeneração sexual se tornou uma régua para medir as pessoas.
A degeneração, afinal de contas, era o processo contrário do darwinismo social. 
Se o sexo procriador era fundamental para a evolução contínua das espécies, desviar dessa norma era uma ameaça para toda a sociedade. 
Por sorte, esse desvio poderia ser revertido, se fosse observado cedo o bastante, pensavam os especialistas da época.
A formação da "inversão sexual" acontecia, para Krafft-Ebing, em vários estágios e era curável já no primeiro. 
"Krafft-Ebing enviou uma mensagem clara contra a degeneração e a perversão. 
Todas as pessoas com dever cívico deveriam se tornar observadoras", escreve Ralph M. Leck, autor do livro Vita Sexualis.
E isso certamente era uma questão de civilidade: a maioria do efetivo colonial vinha da classe média, que era grande e estava em crescimento.

Freud
Apesar de Krafft-Ebing ter ficado relativamente conhecido, foi Freud quem deu ao público maneiras científicas de pensar sobre sexualidade. 
Por mais que seja difícil reduzir as teorias do médico a algumas frases, seu maior legado é a teoria psicossexual do desenvolvimento, segundo a qual as crianças desenvolvem suas sexualidades por meio de uma dança psicológica elaborada dos pais.
Para Freud, heterossexuais não nascem assim, mas são feitos assim. 
Como diz Katz, a heterossexualidade para Freud foi uma conquista, aqueles que a conquistavam com sucesso navegavam por seu desenvolvimento infantil sem sair da linha.
Ainda assim, como diz Katz, exigia muita imaginação classificar essa navegação em termos de normalidade. 
Segundo Freud, o caminho convencional para a normalidade heterossexual é pavimentado com o tesão incestuoso do menino e da menina pelo pai ou mãe, com o desejo das crianças de assassinar seus rivais - ou seja, o pai no caso do menino e a mãe no caso da menina - e com o desejo de exterminar qualquer irmão ou irmã rivais.
Ou seja, a estrada para a heterossexualidade é pavimentada de tesão e desejo de sangue. 
A invenção do heterossexual, na visão de Freud, é uma criação profundamente perturbada.
O fato dessa visão de Édipo ter sobrevivido por tantos anos, assim como a explicação para a sexualidade normal, "é uma das maiores ironias da história da heterossexualidade", diz Katz.

Alfred Kinsey (no centro da foto) pode ter diminuído o tabu sobre o sexo, mas seus estudos reafirmaram as categorias já existentes de comportamento homo e heterossexual.
Ainda assim, a explicação de Freud parecia satisfazer a maioria do público, que, continuando com sua obsessão com a regulação sobre todo e qualquer aspecto da vida, aceitou de bom grado a nova ciência sobre a normalidade.
Essas atitudes tiveram um novo embasamento científico com o trabalho de Alfred Kinsey, cujo estudo Comportamento Sexual do Macho Humano, de 1948, classificava a sexualidade dos homens em uma escala de zero (exclusivamente heterossexual) a seis (exclusivamente homossexual).
Suas descobertas o levaram a concluir que grande parte da população masculina "tem ao menos uma experiência homossexual entre a adolescência e a idade avançada".
Enquanto o estudo de Kinsey ampliou as categorias de homo e hétero ao permitir um certo contínuo sexual, ele também "reafirmou enfaticamente a ideia de que a sexualidade é dividida entre dois polos", como diz Katz.

O futuro da heterossexualidade
Essas categorias permanecem até hoje. 
"Ninguém sabe exatamente por que heterossexuais e homossexuais seriam diferentes", escreveu Wendell Rickets, autor do estudo Pesquisa Biológica sobre Homossexualidade, de 1984.
A melhor resposta que temos é um tanto tautológica: "Heterossexuais e homossexuais são considerados diferentes porque eles podem ser divididos em dois grupos com base na crença de que eles podem ser divididos em dois grupos".
Apesar da divisão hétero/homo parecer eterna e um fato indestrutível da natureza, ela não o é. 
Trata-se meramente de uma gramática recente que os humanos inventaram para falar sobre o que o sexo significa para nós.
A heterossexualidade, afirma Katz, "é inventada no discurso como algo que está fora do discurso. 
Ela é construída como se fosse um discurso que é universal e fora da temporalidade". 
Ou seja, é uma construção, mas é apresentada como se não fosse.
Como qualquer filósofo francês ou criança com um lego poderá lhe dizer, qualquer coisa que foi construída pode ser desconstruída também. 
Se a heterossexualidade não existia no passado, ela não precisa existir no futuro.
Jane Ward, autora de Not Gay ("Não Gay", em tradução livre), questiona o futuro da sexualidade.
"O que significaria pensar sobre a capacidade das pessoas para cultivar seus desejos sexuais da mesma maneira em que cultivam um gosto por uma certa comida?"
Apesar da preocupação de alguns com a possibilidade de uma fluidez sexual, é importante lembrar que vários argumentos na linha Born This Way ("eu nasci assim", em tradução livre) não são aceitos por boa parte dos cientistas.
Eles não sabem exatamente qual é a "causa" da homossexualidade e eles certamente rejeitam qualquer teoria que proponha uma origem simples, como um "gene gay".
Desejos sexuais, como todos os nossos desejos, mudam e são reorientados ao longo de nossas vidas - e é o que eles fazem, frequentemente nos sugerem novas identidades. 
Se isso for verdade, então a sugestão de Ward de que podemos cultivar preferências sexuais parece fazer sentido.
Por trás da pergunta de Ward há um desafio sutil: se estamos desconfortáveis com o quanto de poder temos - se é que temos algum - sobre a nossa sexualidade, qual é o motivo? 
Da mesma maneira, por que estaríamos desconfortáveis ao questionar a crença de que a homossexualidade, e por extensão a heterossexualidade, são verdades eternas da natureza?

O escritor James Baldwin criticou a definição das pessoas como hétero ou gay, dizendo que se trata de "um falso argumento, uma falsa acusação".
Em uma entrevista ao jornalista Richard Goldstein, o romancista e dramaturgo James Baldwin disse ter fantasias boas e ruins sobre o futuro. 
Uma das boas era que "ninguém teria que se definir como gay", um termo para o qual Baldwin dizia não ter paciência. 
"Ele responde a um argumento falso, a uma acusação falsa", dizia.

Que acusação é essa?
"A de que você não tem o direito de estar aqui, que você precisa provar seu direito de estar aqui. 
Eu estou dizendo que não tenho o que provar. 
O mundo também pertence a mim."
Era uma vez em que a heterossexualidade era necessária porque os humanos modernos precisavam provar quem eram e por que eram, e eles precisavam defender seu direito de estar ali. 
Conforme o tempo foi passando, porém, esse rótulo parece na verdade limitar o leque de maneiras pelas quais os humanos entendem seus desejos, amores e medos.
Talvez essa seja uma razão pela qual uma pesquisa britânica recente descobriu que menos da metade dos jovens de 18 a 24 anos se identificam como "100% heterossexual".
Isso não sugere que a maioria desses jovens sejam bissexuais ou homossexuais, mas que eles não precisem mais desse termo como as gerações passadas precisavam no século 20.
Debates a respeito de orientação sexual tendem a focar em um conceito mal definido de "natureza". 
Porque o sexo entre genitais diferentes geralmente resulta na reprodução da espécie, damos a ele um status moral especial.
Mas a "natureza" não nos revela nossas obrigações morais - somos responsáveis por determiná-las, mesmo quando não percebemos que estamos fazendo isso. 
Como observou o filósofo David Hume, pular de uma observação de como é a natureza para uma fórmula do que a natureza deve ser é uma falácia lógica.

Conforme os direitos LGBT se tornam mais reconhecidos, muitas pessoas também descrevem seus desejos sexuais como parte de um espectro.
Por que julgar o que é natural e ético para um ser humano de acordo com sua natureza animal? 
Muitas das coisas que os humanos valorizam, como medicina e arte, não são naturais. 
Ao mesmo tempo, humanos detestam muitas coisas que são naturais, como doenças e morte.
Se considerarmos alguns fenômenos naturais como éticos e outros como não-éticos, isso significa que as nossas mentes (os que observam) estão determinando o que fazer com a natureza (o que é observado). 
A natureza não existe em algum lugar "lá fora", independentemente de nós - sempre estamos interpretando-a de dentro dela.
Até este momento da história do planeta, a espécie humana se multiplicou por meio do coito de sexos diferentes. 
Cerca de um século atrás, demos significados específicos a esse tipo de relação sexual, parcialmente porque queríamos encorajá-las.

Mas o nosso mundo está bastante diferente hoje. 
Tecnologias como a implantação de diagnóstico genético e fertilização in vitro (FIV) estão sendo cada vez mais desenvolvidas. 
Em 2013, mais de 63 mil bebês nasceram a partir de FIV. 
Na verdade, mais de cinco milhões de crianças nasceram através de tecnologias reprodutivas. 
Esse número ainda mantém esse tipo de reprodução como minoria, mas toda evolução tecnológica começou com os números contra ela.
Socialmente, também, a heterossexualidade está "perdendo terreno"
Se havia um tempo em que indiscrições homossexuais eram o escândalo do dia, mudamos para um outro mundo cheio de casos heterossexuais de políticos e celebridades, com fotos, mensagens de texto e vários vídeos de sexo. 
A cultura popular está repleta de imagens de relações e casamentos heterossexuais disfuncionais.
Além disso, entre 1960 e 1980, a taxa de divórcio aumentou em 90%, lembra Katz. 
E enquanto ela caiu consideravelmente durante nas últimas três décadas, ela não se recuperou ao ponto em que seja possível falar que "instabilidade de relacionamento" seja algo exclusivo dos homossexuais, diz Katz.
A tênue linha entre heterossexualidade e homossexualidade não é apenas borrada, como alguns interpretam a partir da pesquisa de Kinsey - é uma invenção, um mito, que já está defasado, diga-se. 
Homens e mulheres continuarão fazendo sexo entre genitais diferentes até o fim da espécie humana. 
Mas a heterossexualidade enquanto marcador social, estilo de vida e identidade pode morrer muito antes disso.

post: Marcelo Ferla
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